Apneia do sono: Entenda os riscos e como tratar essa condição

Dormir bem é um dos pilares da saúde. Ainda assim, milhões de pessoas passam noites aparentemente tranquilas enquanto enfrentam um distúrbio silencioso e potencialmente grave: a Apneia Obstrutiva do Sono (AOS). Caracterizada por interrupções repetidas da respiração durante o sono, por bloqueio parcial ou total da via respiratória superior. Essa condição, portanto, reduz a oxigenação do sangue e fragmenta o sono reparador, comprometendo não apenas a disposição no dia seguinte, mas também a saúde a longo prazo.

CAUSAS DA APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO (AOS)

As causas são variadas, como alterações anatômicas das vias aéreas superiores, relaxamento do tônus muscular na região da garganta durante o sono, tamanho da língua, espessura do pescoço, posicionamento estrutural da mandíbula, obesidade e esteatose (gordura no fígado), ingestão de bebida alcoólica, sedativos, doenças respiratórias crônicas, tabagismo, fatores genéticos, idade e posicionamento durante o sono. Por outro lado, outro tipo chamado apneia central, ocorre quando o cérebro falha ao enviar os estímulos respiratórios durante o sono.

Estima-se que entre 10% e 30% da população adulta apresente formas moderadas a graves de AOS, com prevalência ainda maior entre pessoas com sobrepeso e indivíduos acima dos 40 anos de idade. Apesar disso, muitos casos permanecem sem diagnóstico.

COMO DIAGNOSTICAR

Mais do que um simples ronco (que é um importante sinal de alerta), a apneia do sono está associada a doenças cardiovasculares, alterações metabólicas e prejuízos cognitivos, tornando-se um relevante problema de saúde pública e comprometimento da qualidade de vida.

O diagnóstico é feito principalmente por meio da polissonografia, exame que monitora diversas funções do organismo durante o sono, como padrões respiratórios e cardíacos, níveis de oxigênio no sangue, captação do ronco e movimentos corporais por micro despertares, além da atividade cerebral em alguns casos. Este exame oferece o recurso em laboratório do sono ou modalidades domiciliares simplificadas.

Um dos principais indicadores avaliados é o Índice de Apneia-Hipopneia (IAH), que mede a frequência das pausas respiratórias por hora, mas não para por aí. Outros parâmetros avaliativos têm importância, como índice e correlações de Dessaturação de Oxigênio e sua carga deletéria, registros sonoros de ronco, micro despertares, movimentos e fluxo respiratório, além de registros de frequência e ritmo cardiaco.

A partir desses dados, o profissional especialista em distúrbios do sono, avalia os dados clínicos associados aos registros do exame, considerando fatores anatômicos, funcionais e doenças associadas, refletindo a complexidade da própria doença. Assim, é possível determinar a gravidade e indicar o tratamento mais adequado.

TRATAMENTO E CUIDADOS

Entre as opções terapêuticas, o CPAP (pressão positiva contínua nas vias aéreas) é considerado o padrão-ouro no tratamento. O dispositivo utiliza uma máscara de conforto, que fornece fluxo suave e contínuo de ar, mantendo as vias aéreas abertas durante o sono e evitando os episódios de obstrução. Seus benefícios são amplamente comprovados: redução significativa das pausas respiratórias, ronco e engasgos, melhora da oxigenação e recuperação da qualidade do sono. Além disso, o uso regular do CPAP traz benefícios importantes para as saúdes cardiovascular, metabólica e comportamental.

O acompanhamento profissional no período de adaptação para o uso do CPAP é crucial, exigindo aconselhamento, orientações e ajustes graduais, incluindo reavaliações no início do tratamento.

A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE

Os impactos da apneia do sono vão muito além da noite mal dormida. A queda repetida e profunda dos níveis de oxigênio no sangue, ativa processos inflamatórios no organismo, e alterações das pressões sanguínea, abdominal e torácica, contribuindo para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares metabólicas e até cerebrais. Ao mesmo tempo, a fragmentação do sono leva à sonolência diurna, dificuldade de concentração e aumento do risco de acidentes, especialmente no trânsito e no ambiente de trabalho.

A condição também está relacionada a distúrbios metabólicos, como resistência à insulina e diabetes tipo 2, além de influenciar a saúde mental, com maior incidência de ansiedade, depressão, alterações de humor e dor de cabeça matinal. Em alguns casos, pode haver impacto até mesmo na memória e na capacidade de raciocínio.

Felizmente, os avanços tecnológicos têm contribuído para tornar o tratamento mais eficaz e acessível. Dispositivos portáteis modernos e silenciosos, com máscaras confortáveis e sistemas de monitoramento remoto, permitem um acompanhamento mais preciso e personalizado. A telemedicina também surge como aliada, facilitando o suporte contínuo e a identificação precoce de dificuldades no tratamento.

Além do CPAP, outras abordagens podem ser indicadas no ato do diagnóstico, como dispositivos intraorais, cirurgias ou mudanças no estilo de vida, especialmente a perda de peso, que desempenha papel fundamental na evolução da doença.

Diante de sua alta prevalência e de seus múltiplos impactos, a apneia do sono exige atenção. O diagnóstico precoce, a escolha adequada do tratamento, o acompanhamento profissional e o compromisso com a adesão ao tratamento, são essenciais para reduzir riscos e melhorar a qualidade de vida.

Em um cenário onde o descanso é frequentemente negligenciado, reconhecer e tratar a apneia do sono pode ser um passo decisivo para uma vida mais saudável, porque dormir bem não é um luxo, é uma necessidade vital.

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Dra. Renata Calsaverini Leal

Fisioterapeuta do Sono e Pneumofuncional

CREFITO 15138-F

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