O esgotamento na parentalidade já tem nome, mas continua sendo vivido em silêncio por muitas mães e pais, atravessados pela culpa, pela sobrecarga e pelo ideal impossível de dar conta de tudo.
Amar um filho não impede o esgotamento. Essa frase, por si só, já costuma provocar incômodo. Isso porque ainda existe uma expectativa social muito forte de que a maternidade e a paternidade sejam vividas como experiências naturalmente plenas, intuitivas e gratificantes. Como se o amor, por si, bastasse para sustentar tudo: o cansaço, a renúncia, a sobrecarga, as noites mal dormidas, a repetição, a responsabilidade constante. Mas a experiência real da parentalidade está longe desse ideal.
Há mães e pais que amam profundamente seus filhos e, ainda assim, se percebem exaustos, irritados, impacientes, emocionalmente drenados. Pessoas que continuam cuidando, funcionando, organizando a rotina, cumprindo tarefas, mas com a sensação de que já não conseguem estar verdadeiramente presentes. Muitas vezes, junto com isso, surge a culpa: “Se eu amo meu filho, como posso estar tão cansado dele?” ou “Que tipo de mãe eu sou para sentir vontade de sumir por algumas horas?”. Essas perguntas, que geralmente são vividas em silêncio, fazem parte de um sofrimento mais comum do que se imagina.
Nos últimos anos, esse estado passou a ser mais nomeado no campo da saúde mental como burnout parental. O termo ajuda a dar visibilidade a um esgotamento intenso associado ao exercício da função materna ou paterna, já descrito em pesquisas psicológicas como uma condição específica da experiência de cuidar. Em geral, envolve exaustão profunda no papel parental, distanciamento afetivo em relação aos filhos, perda de prazer na convivência e a sensação dolorosa de já não ser o pai ou a mãe que se imaginava ser.
Mas, para além da nomeação, é importante fazer uma distinção: do ponto de vista psicanalítico, esse sofrimento não se reduz a uma lista de sintomas. Ele diz respeito também à vida psíquica do sujeito, à forma como cada pessoa ocupa o lugar de pai ou mãe, às marcas da própria história, às exigências internas, às idealizações e ao modo como o cuidado se articula com o desejo, com a falta e com os limites de cada um.
Quando nasce um filho, não nasce apenas uma criança. Nascem também fantasias, expectativas, medos, identificações, lutos e conflitos. A parentalidade convoca algo muito profundo da experiência subjetiva, porque toca não apenas no presente, mas também na história inconsciente de quem cuida. Cada pai e cada mãe encontra, na relação com o filho, algo da própria infância, das próprias faltas, do que recebeu e do que não recebeu. Por isso, cuidar de uma criança nunca é apenas executar tarefas. Há sempre algo da ordem do afeto, do desejo e da ambivalência em jogo.
A ambivalência, aliás, é um ponto central. A cultura ainda sustenta uma imagem idealizada da parentalidade em que o amor pareceria incompatível com o cansaço, com a irritação ou com a vontade de afastamento. Mas a clínica mostra justamente o contrário: onde há vínculo importante, também há ambivalência. É possível amar e, ao mesmo tempo, sentir raiva. É possível desejar proteger e, em certos momentos, desejar distância. Isso não é anormal. O sofrimento se intensifica quando esses afetos não encontram espaço de elaboração e passam a ser vividos apenas como culpa ou fracasso.
Muitas mães e pais chegam ao consultório sentindo que falharam precisamente no lugar em que mais queriam acertar. Relatam estar no automático, sem energia psíquica, sem prazer, sem paciência. Pequenas demandas cotidianas passam a ser sentidas como insuportáveis. O choro da criança, a repetição das rotinas, a necessidade constante do outro deixam de ser apenas cansativos e passam a ser vividos como algo que invade, consome e esvazia. Em vez de reconhecerem que estão esgotados, muitos concluem que há algo de errado com eles. E é justamente aí que o sofrimento se fecha: quando a exaustão deixa de ser lida como um sinal de limite e passa a ser interpretada como falha moral.
Esse processo não pode ser pensado sem o contexto em que a parentalidade contemporânea acontece. Hoje, espera-se que pais e mães sejam emocionalmente disponíveis, pacientes, conscientes, produtivos, afetivamente regulados, atentos ao desenvolvimento dos filhos e, de preferência, felizes em tempo integral. No caso das mulheres, essa exigência costuma ser ainda mais intensa, atravessada por uma sobrecarga mental invisível, pelo ideal de maternidade plena e pela expectativa de dar conta de tudo sem reclamar. A ideologia da chamada “maternidade intensiva”, descrita por Sharon Hays, ajuda a entender como esse ideal se tornou tão opressivo.
Além disso, há fatores muito concretos que agravam esse esgotamento: redes de apoio frágeis, jornadas duplas ou triplas, relações conjugais desiguais, isolamento, dificuldades financeiras, filhos com demandas intensas, e uma vida social cada vez menos comunitária. Em paralelo, as redes sociais oferecem imagens recortadas de uma parentalidade bonita, organizada e emocionalmente resolvida, o que aprofunda a sensação de inadequação de quem vive a experiência real, com suas falhas, impasses e contradições.
Na perspectiva psicanalítica, o ponto não é ensinar alguém a ocupar de forma perfeita o lugar de pai ou mãe. Esse ideal, aliás, faz parte do problema. O trabalho clínico consiste em abrir um espaço em que esse sujeito possa falar do próprio cansaço sem ser imediatamente julgado, reconhecer seus limites sem tomar isso como prova de desamor, interrogar as exigências que impõe a si mesmo e recolocar em circulação algo do próprio desejo. Porque ninguém sustenta a função de cuidar de maneira viva quando está completamente apagado de si.
Há um momento em que o sofrimento parental deixa de ser apenas “cansaço da rotina” e se torna um pedido de escuta. Isso pode aparecer na forma de irritabilidade constante, sensação de vazio, distanciamento afetivo, culpa excessiva, choro frequente, desânimo persistente ou na fantasia recorrente de desaparecer por algum tempo. Em alguns casos, esse esgotamento também repercute nas relações familiares, no vínculo conjugal e na saúde física e emocional de quem cuida. Estudos têm mostrado que o burnout parental importa não apenas pelo sofrimento do adulto, mas pelos efeitos que pode produzir em toda a dinâmica familiar.
Nomear esse sofrimento é importante não para transformar a experiência em rótulo, mas para interromper o circuito de silêncio em que muitos pais e mães ficam presos. Há um alívio importante quando alguém percebe que o que sente não é monstruoso, nem raro, nem necessariamente sinal de que ama menos. Em muitos casos, trata-se de um esgotamento psíquico real, agravado por condições concretas de vida e por ideais impossíveis de sustentar.
Do ponto de vista da psicanálise, cuidar também implica aceitar que a parentalidade não se faz sem falhas. Não existe mãe inteira, pai inteiro, presença total, disponibilidade absoluta. A experiência de cuidar de um filho é inevitavelmente atravessada por desencontros, reparações, limites e imperfeições. E isso não é um desvio da boa parentalidade; isso é a própria condição humana do cuidado.
Talvez uma das tarefas mais difíceis para quem é pai ou mãe seja justamente abrir mão da fantasia de completude. Aceitar que amar não é o mesmo que suportar tudo sem limite. Aceitar que pedir ajuda não é fraqueza. Aceitar que continuar existindo como sujeito, para além da função parental, não é egoísmo, mas condição para que o cuidado com o outro não se transforme em apagamento de si.
Se há algo que o burnout parental nos obriga a escutar, é que ninguém deveria sustentar sozinho o peso de uma função tão exigente. E que, por trás da culpa de muitos pais e mães, existe frequentemente um sujeito exausto, solitário e sem espaço para simbolizar o que vive. Levar esse sofrimento a sério não é dramatizar a parentalidade. É humanizá-la. Reconhecer o próprio limite pode ser o início de um cuidado mais verdadeiro. Não um cuidado perfeito, ideal ou sem falhas, mas um cuidado possível. Mais vivo. Mais honesto. Mais humano.