O olho é um pequeno globo com tamanho médio de 2,5 centímetros. A parede desse globo tem em torno de 1 milímetro de espessura e é formada, na parte anterior, pela córnea (transparente) e, na sua parte lateral e posterior, pela esclera (branca).
A cirurgia de catarata exige a penetração nesse globo para a retirada do cristalino opaco, que está localizado logo atrás da íris (estrutura colorida). Antes de 1980, essas incisões eram realizadas no limbo (transição entre a córnea e a esclera) e eram enormes, em torno de 12 milímetros de extensão, para que o cristalino pudesse ser retirado inteiro de dentro do olho. Nessa época, a única forma de fechamento dessa incisão linear eram as suturas, normalmente aplicadas separadamente, em número de 10 a 12.
Nesse período, a exigência de repouso absoluto era a regra, inclusive na posição de dormir, para que a incisão não fosse comprimida, o que poderia provocar vazamento do líquido intraocular, com possível contaminação e consequente infecção grave.
Na década de 1980, o americano Howard Fine desenvolveu a “Clear Corneal Cataract Surgery”, técnica que revolucionou definitivamente a facoemulsificação do cristalino, que havia sido desenvolvida bem antes. Essa técnica permite a retirada do cristalino, que é emulsificado dentro do olho, por uma incisão corneana tunelizada de 2 milímetros.
Com uma incisão desse tamanho e formato, as formas de fechamento mudaram completamente. Considera-se essa incisão em túnel como autosselante, ou seja, no final da cirurgia a incisão se fecha com a pressurização do olho com soro fisiológico. Entretanto, qualquer pressão na base da incisão pode abri-la e provocar vazamento do líquido intraocular.
Quando o cirurgião deixa a incisão autosselante, ou seja, sem sutura, ele deverá exigir repouso por um bom tempo e, obrigatoriamente, o paciente deverá usar um oclusor ocular (de acrílico) para evitar qualquer pressão na base da incisão. Alguns cirurgiões fazem a hidratação do estroma corneano com soro fisiológico para fechar as paredes da incisão, o que ajuda a prevenir sua abertura, mas, mesmo assim, cuidados especiais de repouso devem ser tomados.
Para maior segurança, outros cirurgiões ainda aplicam um ponto na incisão, o que realmente protege, mas não evita totalmente o vazamento do humor aquoso intraocular se houver pressão na base da incisão.
Em 1994, apresentei na American Society of Cataract and Refractive Surgery um trabalho mostrando como utilizar uma cola orgânica na incisão em córnea clara. Desde então, há 32 anos, venho utilizando esse método em todas as minhas cirurgias de catarata.
Após meia hora da selagem da incisão com a cola, já é possível fazer pressão na base da incisão sem que ela se abra. Isso foi demonstrado no trabalho apresentado nos Estados Unidos. Por isso, hoje, com mais de 30 mil cirurgias realizadas utilizando a selagem da incisão com cola orgânica, posso garantir que o paciente pode retomar suas atividades normais a partir do primeiro dia após a cirurgia, evitando apenas esportes de choque como futebol, beach tennis, entre outros.
Os pacientes, inclusive, ficam surpresos quando digo que podem dormir de qualquer lado e trabalhar já no dia seguinte à cirurgia.
“Doutor, eu já posso mesmo trabalhar no primeiro dia após a cirurgia?”
Sim — e eles realmente se surpreendem, porque o habitual, entre cirurgiões que não utilizam cola, é indicar repouso absoluto, evitando qualquer movimento brusco por algumas semanas após a cirurgia.
Outra vantagem da cola orgânica é que, como o olho já está selado, não há necessidade de curativo nem no dia da cirurgia, e também não é preciso utilizar oclusores de acrílico no pós-operatório. Ou seja, o paciente pode voltar imediatamente à sua rotina normal, tanto em casa quanto no trabalho.
Com isso, a selagem da incisão tunelizada com cola orgânica na cirurgia de catarata proporciona, sem dúvida, um conforto inigualável para esse procedimento. O mais importante, entretanto, é a segurança da técnica, comprovada por milhares de cirurgias já realizadas no D’Olhos sem qualquer complicação.