Cirurgia de parede abdominal: quando a complexidade exige estrutura

A cirurgia da parede abdominal deixou de ser uma subárea simples da cirurgia geral há muito tempo. A complexidade crescente dos casos, impulsionada por fatores como recidivas, múltiplas cirurgias anteriores, hérnias de grandes proporções e comorbidades associadas, tornou esse campo um verdadeiro desafio técnico e clínico.

Na Europa, isso já foi reconhecido. A European Hernia Society estabeleceu parâmetros claros para a formação de especialistas e a certificação de centros dedicados. O grupo ACCESS, por exemplo, propõe que centros de excelência em cirurgia de parede abdominal devem atender a critérios rigorosos: alto volume de casos, domínio técnico, protocolos baseados em evidências, atuação multidisciplinar e rastreamento contínuo de resultados.

Esse modelo tem mostrado resultados consistentes. Em centros especializados, mesmo os casos mais complexos, com pacientes que chegam de outros estados ou países, são tratados com taxas menores de complicações, menor tempo de internação, redução de recidivas e melhora significativa da qualidade de vida. O diferencial está na estrutura: equipes dedicadas, preparo pré-operatório rigoroso, planejamento multidisciplinar e domínio de técnicas avançadas, como separação de componentes, uso de toxina botulínica e reconstrução em camadas.

Além disso, as diretrizes internacionais atuais defendem que a abordagem de hérnias abdominais seja sempre personalizada. Isso significa escolher a técnica com base nas características específicas de cada paciente, o que exige que o cirurgião domine múltiplas abordagens, do open ao robótico. Ou seja, não se trata apenas de operar, mas de decidir bem, planejar melhor e executar com precisão.

No Brasil, ainda não existe o reconhecimento formal da Cirurgia de Parede Abdominal como área de atuação ou subespecialidade médica. No entanto, a demanda já existe e está crescendo. Casos complexos estão cada vez mais frequentes, e os riscos de abordagens inadequadas também. Seguimos tratando como rotina algo que, na prática, exige uma expertise altamente especializada.

Não é uma questão de criar modismos ou títulos. É uma questão de resultado. A literatura é clara: quanto maior a complexidade, maior o impacto de operar no lugar certo, com o time certo. Reconhecer a necessidade de centros especializados no Brasil não é seguir uma tendência. É responder à realidade clínica que já vivemos.

Estamos, sim, no caminho. Mas é hora de acelerar.

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Dra. Gabriela Gouvea Silva

Cirurgia Geral

CRM/SP 183.112 | RQE 79.179

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