A obesidade deixou de ser entendida apenas como um acúmulo de peso. Hoje, sabemos que se trata de uma doença crônica, multifatorial e metabolicamente complexa. Como gastroenterologista atuando na interface entre aparelho digestivo, metabolismo e cirurgia, acompanho de perto essa mudança.
Nos últimos anos, as terapias injetáveis revolucionaram o tratamento. Medicamentos como a tirzepatida modulam hormônios da saciedade, melhoram o controle glicêmico e reduzem gordura visceral — um componente diretamente ligado ao risco cardiometabólico. Porém, o benefício não está apenas na medicação em si, mas na capacidade de individualizar dose, ritmo de perda e manejo de efeitos colaterais, como náuseas, constipação e refluxo.
Outro ponto essencial é proteger massa muscular e metabolismo durante o emagrecimento. Para isso, utilizo ferramentas como bioimpedância, ajuste de proteína e fortalecimento muscular, que evitam a perda magra e tornam o resultado sustentável. Em muitos pacientes, estética é consequência clínica de um processo orientado para saúde.
Há situações em que, mesmo com terapias injetáveis, o melhor caminho é a cirurgia metabólica. Quando bem indicada, a bariátrica oferece controle hormonal, melhora de comorbidades e impacto expressivo no longo prazo. O segredo está em integrar o cuidado — do diagnóstico ao acompanhamento pós-operatório — evitando a ideia equivocada de que “remédio” e “cirurgia” são caminhos opostos.
Emagrecer não é uma corrida de velocidade, mas um tratamento contínuo. Obesidade não é falta de vontade: é uma condição com bases biológicas claras e que exige abordagem médica. A era atual nos permite tratar com mais ciência, menos culpa e resultados mais consistentes.